Não saio daqui, não saio mesmo!!

Foto Jornalista livres


por Harold Lisboa

A vida do peão é difícil , sempre foi. Mas atualmente ele sente na pele que o inferno existe e que do jeito que as coisas andam, é pra lá que ele se encaminha. 
Antes, bem antes , era possível dar uma sonhadinha, bastava duas pisadas na parede, para a rede pegar embalo e com a pequena brisa  produzida , o peão começava a roncar.

Já nem se lembra quando foi a última vez que sua grelha ficou entupida para um assado com a família e vizinhos ,e nem quando trouxe os litrões de tubaína para as crianças e também os seus de cevada. Pois sem uma pra encarar, fica ruim…

Já se vão muitos meses que sua esposa não põe nenhuma farda no varal pra secar. O cartão de ponto é algo distante de sua realidade hoje,Tá ruim.

Não da mais pra bater pernas atras de um trabalho com carteira assinada , nem dentro e nem fora da cidade. Suas buscas findaram e com isso, ele montou seu escritório em uma baiuca na rua principal do bairro, ali aparecem os pingados bicos  e pingas , e cada vez pinga mais peão pra pisar o surrado assoalho de madeira do estabelecimento.

Mais vai se levando. A peaozada é ordeira e solidária,sem nenhum empurrão , sempre cabe mais um e mais um companheiro .

De vez em quando surge uma boa nova, e a esperança se abre nos seus olhos de pouco brilho. Ainda outro dia, um sobrinho seu embarcou pra fora do país e pra seu espanto, já está com um trabalho garantido , se tudo correr bem , logo pinga uma ajuda na sua continha. 

Dá uma olhada pro céu cheio de nuvens negras , tira o boné esfarrapado do emblema amado, lembra da maezinha e agradece . Acreditar é preciso.

A TV da baiúca somente piora o humor de sua audiência, mas, existem momentos que todos se embalam em uma névoa maravilhosa, é quando a esférica rola nos verdes relvados das Arenas endinheiradas, a peaozada torce como louca com os lances e tenta espelhar a alegria daquela gente em si . Alguém no fundo lembra que a prefeitura está pensando em reformar o estadinho local , ou seja, trampo por vir…

Vem o show do maldito intervalo e com ele a realidade. Gente condenada, gente presa, gente partindo. Tem a história de uma tia branca e bem alimentada que também está de malas prontas para o exterior um gaiato, fala q deve estar recheada de grana verde– .



Deixou  um bom emprego em uma estatatal , mas está estressada com o rumo no país , não aguenta mais tanta corrupção, tanta insegurança… seu dog vai junto, do alto de seu sofá , o bonito animal, só observa.

A barriga do vira-lata ao lado ronca, alguém embebe um pedacinho de pão nas sobras do tira gosto de sardinhas e serve ao faminto cão .

Nosso herói com forte hálito etílico e voz pastosa se prepara para virar a saideira , joga uma pro santo  e por cima das cabeças ,consegue ver um tiozinho e suas mãozinhas balançarem no ar, desiste do segundo tempo. 

Mas a frase final do tal tiozinho vai junto consigo.


‘ Não saio daqui, não saio mesmo!!’

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