Quem são ” os moradores do Leblon que não querem um estádio na Gávea ” ?

Dividir é o melhor que há . Como é do conhecimento geral, vai chegar um dia que todos nós teremos que parar para acertar, é o passar a régua. Então cada um irá para sua montanha particular.

O texto abaixo é sobre o Flamengo, mas podia ser da Tuna ou do Fluminense e suas Laranjeiras , no Rio ou em Aracaju…

Lúcio de Castro é um desses jornalistas que escreve coisas sérias , mas sua escrita é de uma leveza extraordinária que a gente acaba pensando calmamente sobre as mazelas de nossas grandes metrópoles.

Como disse algumas escadas acima não é só sobre futebol, é sobre gente.

Gente que são esparramados pelos projetos, gente que torce por eles e seus benefícios…

Lúcio é desses caras que a gente percebe o suor nas testas em seus textos e o principal é que ele está sempre cercado de gente e acerca das dores deles.

Todos nós temos uma Cruzada São Sebastião na nossa amada ilharga.
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Por Lúcio de Castro – 

http://agenciasportlight.com.br/
 
Cheguei na Cruzada São Sebastião e logo fui vendo um cartaz anunciando a morte do Sammy Davis Jr. Consternado com a perda de tão boa figura, segui andando ainda meio zonzo pelos blocos que compõe o enclave popular no meio do chique Leblon. Abro um parêntesis para lamentar a ausência de uma foto do Sammy. O nobre leitor morreria de rir e louvaria a sabedoria popular. Quem foi o sábio tão cirúrgico ao botar o apelido em sósia tão perfeito? Mais alguns passos e eis que tomo um dos maiores sustos nesses bons anos. Quem está vindo na minha direção, já com a mão estendida e o sorriso de sempre? Ele, do alto de seu metro e meio e queixo protuberante. O próprio, aquele que há 5 minutos era um defunto…

Tinha esquecido que mês sim e outro também alguém bota um cartaz lá na Cruzada anunciando a morte do Sammy…Que mesmo resignado com a brincadeira de gosto duvidoso, não se poupa de proferir uns 10 palavrões…E repetir que acha que é coisa do Soninha…Não vou contar pra ele, mas claro que é coisa do Soninha, vulgo Da Sônia… Refeito, parei para a boa resenha de sempre. E foi aí que tomei o verdadeiro susto. Mais algumas linhas aí abaixo e já explico meu susto. O verdadeiro susto. Um imenso susto. Para o amigo leitor que não é do Rio, peço desculpas porque algumas ruas e localizações não farão sentido. Mas estou certo de que, como disse o poeta, falando de minha aldeia, serei universal. E logo reconhecerá tudo o que vem impregnado nesse breve relato.

São 945 apartamentos ali na Cruzada. Espalhados em 10 blocos. Uns dizem que são oito mil moradores, outros dizem que chegam a dez mil… Deve haver algum número oficial por aí mas não difere muito de ser uma grande concentração em espaço exíguo, um quarteirão espremido entre o Jardim de Alá e a Afrânio de Melo Franco. Vizinho do Flamengo, da AABB, do Monte Líbano, do Caiçaras, do Shopping Leblon e de alguns dos mais caros endereços do Rio. Penso naquela comunidade e sempre me vem a imagem de um bantustão. Aqueles territórios da África do apartheid, onde os negros deviam ficar para não se misturar. Historicamente, sempre viram assim a Cruzada. Mas como a vida deu uma volta, o tempo empoderou aquela gente e na fresta (apud Simas) eles deram a volta em todo mundo e fizeram dali seus hinos de vida. Suas festas, seus rituais. Há muito mais vida ali do que nas mansões do Jardim Pernambuco, do que na Delfim Moreira.

Há um talento sempre pronto a explodir na poesia das cinco escolas de samba que ali já existiram, na marca inigualável de ser, preste atenção no que vou falar e conteste se for capaz, a comunidade no mundo (falei no mundo) que mais revelou craques de futebol, De Dominguinhos a Uri Gueller, passando pelo maior deles, Adílio, Ernani, Rui Rei, Paulinho Pereira…são mais de 10 em um pequeno lugar. Nessa equação tão Brasil em que a demanda de talento é muito maior do que as oportunidades. Tem médico, advogado, saiu juiz, fisioterapeuta, tem grandes atores (alô Negueba!), tem tudo. E tem alguns dos sambas mais lindos que já ouvi, dos bambas que andavam no pedaço em outras décadas. Que vão se perdendo conforme as pretas-velhas vão morrendo… Encontro meu bom amigo Alberto Mussa, craque maior das letras e sempre falamos que vamos ligar uma câmera ali pra que isso não se perca…Só com a dona Arlete já ouvi umas dez joias raras…Monsueto, gênio da raça pouco lembrado, era dali. Tinha Ari Meganha, que ninguém conhece, de letras lindas…

O tal estádio acústico deve ter camarotes caríssimos para pagar que os Vinícius Jr fiquem bom tempo no clube, deve ter restaurante, hotel, o que quiserem. Mas tem por obrigação respeitar a história do Flamengo e comportar a todos.

 

Prometi que ia falar da razão do susto e me perdi nas divagações sobre essa usina de talentos. Chego lá, me dê só mais algumas linhas, amigo leitor. Essa gente não era pra brilhar pelo projeto de poder original. E brilha. Não era porque sempre tentaram botar eles pra baixo do tapete. A história da Cruzada é essa. Queimaram a Favela da Praia do Pinto pra que tirassem tudo que é preto e pobre do Leblon. Mandaram pra Cidade de Deus, pra Cidade Alta. Pela força. Expulsando de seu lugar. Depois se surpreendem quando a cidade explode nessas cidades. O problema é que essa turma se esquece que quando se joga gente pra baixo do tapete, um dia eles saem. Avisam que não vão ficar ali embaixo. Tem a mesma fome de pão e de beleza (apud Frei Betto) que todos nós. E pegam pela mão, avisando que, se enganou meu bem, não ficarão debaixo do tapete. Existem poucas histórias tão incríveis e ricas como a da Cruzada São Sebastião. Por isso volto sempre a essa história. Já cometi um documentário sobre o tema, ligado ao futebol, já escrevi sobre. E voltarei.

É só você imaginar para entender: em poucos lugares existe um contraste tão chocante: aqui está a Noruega, simbolizada em um Leblon de bonança e produtor de sobras de luxo como nenhum outro lugar no Brasil. Ou do mundo. Você cruza uma rua apenas e entra ali, no lugar onde tentou se botar aquela gente pra baixo do tapete. Os crimes contra aquela gente nunca pararam. E seguem. Depois de ressurgirem da Praia do Pinto pelas mãos deles e a benção de Dom Hélder (existem poucas cenas mais comoventes do que a despedida do “Dom”, como eles chamam, indo pro Recife. E o povo da Cruzada cantava: “Obrigado reverendo/ Deus já está no céu vendo/ a nossa gratidão/ Acabou o meu sofrimento/ você fez apartamento/ no lugar de barracão…”), seguiram tentando enfiar de volta pra baixo do tapete.

Não me lembro de movimento de protesto a favor da Cruzada quando construíram o Shopping Leblon. De novo pra quem não conhece, o shopping fica nos fundos da comunidade. Com a construção, simplesmente acabou a passagem de vento. Alguma dúvida sobre o tamanho desse crime? Vá lá no verão e veja você mesmo. Nunca se chegaria nem perto disso, jamais seria aprovado não fosse ali gente humilde. Acabou a passagem de vento, meus caros. De um lado é o muro da AABB. Do outro o paredão do shopping. O fim da ventilação oprime acima de tudo as vítimas de sempre, as crianças e os mais velhos. Certamente muitos cariocas sequer sabem disso. É claro, a dor da gente não sai no jornal. Meus amigos,vi poucas aberrações iguais. Fecharam a passagem de ventilação. É preciso botar em maiúscula? Prometeram umas contrapartidas, uns empreguinhos de boy pra turma da comunidade, o financiamento de umas melhorias e…taparam a passagem de ar. Desde então, os ratos aumentaram, as moscas…Vai lá no verão…

Os crimes seguiram e seguem. Com a construção recente do metrô naquele trecho, tiraram a área que era de lazer e transformaram em passagem de carro. Onde as crianças brincavam, onde se estabelecia um comércio, onde quem é de se virar se virava, encostava um carro de bacana pra consertar, botava uma máquina de frango cambalhota pra assar e arrumar um qualquer, um tabuleiro de doce…Quando acabasse a obra do metrô, iriam devolver e tirar a passagem de carro. Tiraram? Devolveram? O que você acha? Apenas para efeito de comparação, a poucos metros dali, na Rua Leblon, um dos PIBs mais altos do Brasil, em um espaço físico relativamente semelhante, os moradores simplesmente fecharam a rua. Um portão em cada extremidade e pronto, a rua estava privatizada. Alguém reclamou? Imagina a merda se os moradores fizerem o mesmo na Cruzada…

Era a mãe do Sérgio Pé-Frio que contava. A madame da casa em que ela trabalhava ali perto falava na cara dela todos os dias: “a pior coisa que aconteceu pro meu Leblon foi botarem aquela negralhada ali”. “O meu Leblon…”. Mas certamente repetia pras amigas o quanto era boa pra mucama. E o Adílio, o Ernani, craques dali, dos tapas na cara que a polícia entrava dando nos meninos de 10 anos… “Livre do açoite da senzala, preso na miséria da favela…”.

Pois muito bem. Poderia falar muito mais. Enumerar os crimes que seguem ali. Mas prometi que ia falar sobre a razão do susto maior do que a falsa morte do Sammy lá em cima e cumprirei. É que pouco antes de chegar na comunidade, tinha lido uma reportagem (Vinícius Castro, UOL) dando conta de que “os moradores não querem”, segundo representante da Associação dos Moradores do Leblon. Referindo-se aos moradores do Leblon e a opinião deles sobre a construção de um estádio no Flamengo.

Salvo engano maior, e não posso estar tão louco assim, minha pesquisa, nada científica é verdade, mas no boca a boca, ali na Cruzada registrou uma adesão de 100% a ideia, a querer um estádio na Gávea. Junto com a Selva de Pedra (de novo pra quem não é do Rio, esse um condomínio pra bem remediados), ninguém tem mais autoridade do que os moradores dali pra dizer se querem ou não. Porque a Cruzada é grudada ao Flamengo. E no entusiasmo com o qual me descreveram a possibilidade do estádio chego ao susto: como assim, “os moradores não querem”! Quais moradores? Quem?

Escrevo isso e penso em algo mais grave, que espero não ser possível. Será que não consideram os moradores da Cruzada São Sebastião moradores do Leblon? Não quero crer. Porque além dos crimes de ação dos quais foram silenciosamente vítimas ao longo desses anos todos, há também o crime da invisibilidade social, um dos mais dramáticos do nosso país. Será que não foram considerados entre “os moradores não querem”? Mais uma vez invisíveis. Não quero crer, repito de novo. Então como se chegou a esse diagnóstico, como se falou em nome desse personagem “os moradores”?

Vou além: uma das tantas coisas ricas da redemocratização do país, embora alguns não gostem, foi a sociedade civil se pronunciando, se mobilizando, as associações de moradores tendo voz. Embora ainda falte tanto. Tudo deve ser discutido e pensado. Por todos. Todos quer dizer todos mesmo. No caso do estádio na Gávea, penso sinceramente que esse “todos” diz respeito aos moradores da Cruzada, da Selva de Pedra e de alguns edifícios da Lagoa mais próximos. Os que realmente serão afetados, se o forem. Duas, três vezes no mês. Duvido que afete mais do que o shopping Leblon. Mas quem tem que dizer isso é quem está ali grudado. Abrir muito esse leque, achar que um morador da Dias Ferreira, no fim do Leblon, é incomodado, afetado, é o mesmo que dizer que um de Laranjeiras, Botafogo, Tijuca, Méier. Ok, então que todos esses sejam ouvidos, e não o que se acostumou entre alguns a falar no “nosso Leblon”. É o nosso Rio que está em questão, salvo os diretamente afetados, quem pode perder a circulação do vento com uma obra e não é ouvido…

Comecem a enquete pelos oito, dez mil moradores do Leblon que estão na Cruzada São Sebastião para saber se “os moradores não querem”. Essa é minha modesta opinião, fruto de quem tá por aí, de quem é da rua, ouvindo quem deve ser ouvido, ou seja, a todos. E “todos” quer dizer os moradores da Cruzada São Sebastião, os que mais devem ser ouvidos sobre o tema (junto com a Selva de Pedra). Salvo considerem que eles não são moradores do Leblon. Os próximos dias estão agitados nessa humilde Agência Sportlight de Jornalismo Investigativo. Pelos dias agitados e bons que vem por aí, que me obrigam a esse texto corrido sem nem revisar, sabendo que o tema desperta paixões e muitos interesses, deixo o alô de que não volto a ele por bom tempo. Pelo menos até que “os moradores do Leblon” inclua todo mundo.

Por fim, se um dia as coisas caminharem mesmo na direção do estádio, que os mandatários do Flamengo lembrem-se sempre de Cabral e a maldição do Maracanã: não se esqueçam de quem fez a história do Flamengo. O tal estádio acústico deve ter camarotes caríssimos para pagar que os Vinícius Jr fiquem bom tempo no clube, deve ter restaurante, hotel, o que quiserem. Mas tem por obrigação respeitar a história do Flamengo e comportar a todos. Um lugarzinho pra cada bolso. Um pros “moradores que não querem”, um pro povo da Cruzada, pra turma que chegava no trem no Maracanã, pra favela. Senão o encontro marcado de quem menospreza o povão com o grito do Gerdau na madrugada é certo como o Cabral tem escutado nas noites de Bangu 8.

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