Em Cannes, ‘A Praça’ das virtudes e vaidades humanas

Em Cannes, ‘A Praça’ das virtudes e vaidades humanas

Por Flavia Guerra /  

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O hall do Festival de Cannes dos filmes que exploram o lado mais insólito da realidade contemporânea para tratar de questões urgentes e profundas acaba de ganhar mais um título: The Square, ou A Praça. Dirigido por Ruben Östlund (do ótimo Força Maior), o longa parte de uma premissa quase filosófica sobre uma instalação artística: “A Praça é um santuário de confiança e cuidado. Nela, todos nós somos iguais em direitos e deveres.”

A frase pertence a uma suposta argentina que vai expor sua obra no Museu E-Royal de Estocolmo, uma respeitada entidade destinada à arte contemporânea. Que dirige o local é o curador Christian (dinamarquês Clars Bang, da série The Bridge). Bonito, poderoso, engajado em boas causa, ele quer despertar no público a vontade de falar de temas como o altruísmo, algo que ao menos deveria ser de preocupação de todos.

No entanto, como ele bem diz à jornalista Anne (Elisabeth Moss, de Mad Men), o maior desafio como diretor da instituição é o financeiro. Para ele, o museu como instituição pública deve brigar de igual para igual com grandes milionários que colecionam as mais importantes obras de arte. Para isso, precisa de dinheiro. Para ter dinheiro, precisa de público, ser relevante, ter atenção e receber doações dos ricos e poderosos.

Portanto, Christian precisa atrair a mídia para A Praça e, para isso, precisa de uma campanha de mídia que vai viralizar na internet. Então dois jovens “do tipo que nasceram com um tablet na mão” bolam um vídeo mais do que controverso. A equipe de Christian hesita, mas ele, entretido com um plano desastroso para recuperar sua carteira e seu celular roubados, não assiste o vídeo antes de aprová-lo.

A partir daí, uma comédia de erros, ou uma autêntica tragicomédia se desencadeia. E o sempre “equilibrado” Chris começa a ter suas contradições e defeitos postos duramente, e comicamente, postos à prova em uma espiral que lembra o teatro do absurdo.

Se em Força Maior o cineasta já havia acionado os botões do surreal e do constrangedor para provocar seu público, em A Praça Östlund aciona o botão nuclear do esdrúxulo e do patético em várias cenas. Tudo para causar uma reflexão sobre o quão cínicos, hipócritas e egoístas todos nós, seres contemporâneos, estamos.

Quando questionado, na manhã do sábado em conversa com a imprensa, se A Praça é um filme político, o diretor negou, mas não muito. “A mensagem da Praça é muito aberta. A gente pode encontrá-la na história da humanidade, na política. Mas mais importante era que cada um pensasse a política de cada dia”, comentou ele.

De fato. É nos pequenos-grandes atos cotidianos que os caráteres de revelam. Christian é um cara de grandes e humanistas ideias, mas que age muitas vezes com covardia, cinismo, egoísmo. É, como todos, contraditório e demasiadamente humano. Causa raiva, pena e até risos e empatia a trajetória de Chris. É um retrato patético, ainda que exagerado, do modo de vida contemporâneo.

O longa dialoga, mas com humor, com o subtexto de outro filme em competição em Cannes 2017, o russo Loveless. “Esta história tem algo de todos nós. Era isso que eu queria discutir, mais do que fazer uma crítica que toma partido de um lado ou que seja meramente política. Minha ideia era : ‘saia deste jogo’. A gente se cansa deste debate político quando fica só entre Direita X Esquerda. Isso está muito ligado ao lado do poder de se levar e pensar as questões além”, analisou o diretor, em declaração que prova que a trama poderia se passar de fato em qualquer metrópole do mundo.

Para chegar neste “pensar alem”, Östlund coloca a seus personagens e a nós em situações constrangedoras, que duram até a exaustão e são pensadas exatamente, e cerebralmente, para incomodar, tirar o espectador da zona de conforto. Mas, diferente de Força Maior, é menos tocante. A redenção não chega, a jornada do herói torto não se completa de forma óbvia. No entanto, como na vida, Chris tem de lidar com o fracasso, a culpa, as frustrações. Se ele aprende algo? Aí o diretor deixa a gosto do espectador.

“Mesmo que fale de algo maior, acho o filme muito político e lança um olhar contundente sobre a forma de viver ocidental. Sobre a hipocrisia, sobre como fechamos nossos olhos para muitas coisas. A gente não fez o filme para ter uma declaração necessariamente política, mas a política permeia cada um de nossos atos”, observou o ator Clars Bang. Há que se analisar com mais tempo o tabuleiro armado por Östlund, mas que seu jogo de cinema é engenhoso, ainda que imperfeito, isso é.

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