A vida não é bela – João Quadros




Por João Quadros
http://www.jornaldenegocios.pt/

A vida não é belaTentar arranjar algo de menos desumano do que fez Hitler, em comparação com outro ditador assassino, dá nisto. Nesta versão adocicada do Holocausto nazi, feita por Sean Spicer, Anne Frank, afinal, só sofria de agorafobia.

Sean Spicer, secretário de Imprensa e Director de Comunicações do presidente Donald Trump disse em relação a Bashar al-Assad: “Nem Hitler desceu tão baixo ao ponto de usar armas químicas.” Dizer “nem Hitler chegou tão baixo” é uma frase difícil de encaixar, seja qual for o argumento. Tirando um: nem Hitler chegou tão baixo em termos de bigodes estapafúrdios, como o Dom Duarte de Bragança, é complicado arranjar um assunto onde alguém possa ter chegado mais baixo que o Adolfo. Especialmente quando o assunto é genocídio com uso de armas químicas. Até o próprio Hitler ficaria chateado, depois de tudo o fez – “ainda nem oitenta anos passaram e já fazem de mim um monstro de segunda.”

Sean Spicer mais tarde viria pedir desculpa e corrigir. Argumentou que se explicou mal, que o que queria dizer é que Hitler não usou armas químicas no seu povo, esquecendo-se que milhares de judeus eram cidadãos alemães. Além de ser mentira, a frase é extraordinária porque transmite a ideia de que Hitler não gazeou o seu povo, só outros seres humanos (o que não é tão grave porque têm guelras), nomeadamente, os grandes aliados e amigos dos EUA , o povo de Israel…Ups! 

O secretário de Imprensa de Trump na sua ânsia de se desculpar vai tentando segurar as peças de dominó, mas vai derrubando-as umas atrás das outras, e acaba a dizer que é diferente do Bashar al-Assad porque ele bombardeou gente com químicos e o Hitler levava as pessoas para, e cito – Centros de Holocausto – que, sendo uma designação nova para aqueles locais de horror, nem sequer podemos considerar um eufemismo de Campos de Concentração. Sem saber o que era, se me perguntassem, prefere ir para um campo de concentração ou para um centro de Holocausto? Assustava-me mais a segunda. Nestes pormenores a máquina de propaganda de Hitler era melhor que a de Trump. 

Ver o porta-voz do presidente da nação mais poderosa do mundo dizer que é diferente do que fez Assad, porque “Hitler levou-os para o centros de Holocausto” e não os bombardeou, é uma espécie de versão cínica do “A Vida é Bela”. Tentar arranjar algo de menos desumano do que fez Hitler, em comparação com outro ditador assassino, dá nisto. Nesta versão adocicada do Holocausto nazi, feita por Sean Spicer, Anne Frank, afinal, só sofria de agorafobia. 

“Hitler nunca usou armas químicas e não há aquecimento global”, eu podia gostar de viver neste mundo do Trump. Ficava mais leve. Não só o passado era menos pesado como o futuro menos complexo. Mas não é isso que sinto. Toda esta suposta ignorância histórica é assustadora porque pode explicar muita coisa. Ficamos com a noção que esta gente percebe tão pouco da Segunda Guerra Mundial que, provavelmente, não tem problemas em causar uma Terceira. 

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