A era da pós-mentira

Por Flavio Gomes 

http://flaviogomes.grandepremio.uol.com.br/


SÃO PAULO (e caem no conto…) – O prefeito de São Paulo João Doria — cujas maiores realizações até agora foram acabar com o leite para crianças da rede municipal, aumentar em 130% os acidentes com vítimas nas Marginais, se vestir de gari, pintar meia-dúzia de paredes de cinza, inundar TVs e rádios com publicidade oficial e gravar vídeos diários para gáudio da classe média (um deles, ontem, atrapalhando por quatro horas a rotina de uma creche na zona sul) — deu entrevista à “Reuters” e falou sobre Interlagos.

Reafirmou que vai vender o autódromo, garantiu que a iniciativa privada terá enorme interesse no equipamento, disse que lá serão feitos prédios “de luxo”, hotel “de luxo” e museu “com o nome de Senna”, e que a permanência da F-1 em São Paulo será garantida com a privatização do circuito. E afirmou que Bernie Ecclestone vai participar do leilão — que é uma ficção, não há edital, estudos de viabilidade, planos concretos, nada. Aliás, falou sem autorização em nome de Bernie, que em nenhum momento confirmou seu interesse em participar do leilão que não existe. Previu também que o Liberty Media Group, que comprou a F-1, vai se interessar.

 A capacidade de adivinhar o futuro, pelo jeito, é uma das qualidades do prefeito. Bernie, 86, compraria Interlagos para fazer o quê com o autódromo, exatamente? Quantos anos ele levaria para cumprir o roteiro imaginado por Doria, construir seus prédios, hotéis e museu? Quem se hospedaria no distante bairro de Interlagos num hotel de luxo? Quem estaria disposto a morar dentro do autódromo em prédios de luxo? Quem bancaria a construção de um museu de carros de corrida, empreendimento fadado ao fracasso comercial? Quem disse para ele que os caras do Liberty têm interesse em comprar autódromos? Que ideia de jerico é essa?
Vivemos uma era que está sendo chamada de “pós-verdade” — versões, invenções, vazamentos, delações, opiniões, falsidades de todos os tipos e modelos circulam livremente por redes sociais e são compartilhadas, como se diz, sem nenhum controle da sociedade; atingindo milhões de pessoas, acabam virando verdades, embora sejam mentiras.

Doria é adepto da pós-mentira. A cascata da venda de Interlagos ele já havia lançado durante sua campanha eleitoral sem nenhum embasamento legal ou econômico, e agora avança com seus planos mirabolantes e já escolhe, à revelia, aqueles que vão se interessar por um leilão inexistente.

O GP do Brasil não depende da iniciativa privada. Ele já é realizado pela iniciativa privada — os promotores da corrida –, num equipamento público. Como o Lollapalooza, como os jogos no Pacaembu, como o desfile das escolas de samba no Anhembi, como qualquer corrida de pedestrianismo pelas ruas da cidade, como qualquer show no Ibirapuera, como a São Silvestre, como uma peça no Teatro Municipal. São atividades privadas realizadas em parceria com o poder público, e em alguns casos o poder público entra com dinheiro ou com seus equipamentos, seu patrimônio físico, porque é do interesse da cidade receber eventos culturais, musicais e esportivos. Eles movimentam a economia e são importantes para a população. No caso específico da F-1, a Prefeitura aluga o autódromo, recebe por isso, e gasta uma grana preta para montar arquibancadas provisórias e viabilizar a prova — algo que sempre combati, mas a justificativa sempre foi a mesma: o GP traz muito dinheiro para a cidade, o gasto compensa.

 Ah, mas o autódromo tem custo, precisa de obras, de manutenção, vive em reformas. Sim, e no ano passado, com tudo isso, deu lucro. E as obras são necessárias, porque é um equipamento público, e cabe ao poder público cuidar dele, como cuidar das ruas — usadas por carros particulares –, dos hospitais, das escolas, dos parques, de suas obrigações com… o público. É para isso que pagamos impostos, para que o poder público cuide daquilo que a população usufrui.
Ah, mas corrida de carro é coisa de rico e não cabe à Prefeitura gastar dinheiro para rico se divertir. Corrida de carro pode ser coisa de rico, mas os ricos pagam para correr e aquilo que gastam em Interlagos é parte do lucro que o autódromo gerou no ano passado. Automobilismo é uma atividade que merece respeito como qualquer outra, gera empregos, é um esporte relevante, e se há quase 80 anos a cidade é proprietária de um autódromo, que cuide para que seu patrimônio continue existindo nas melhores condições possíveis.

O patrimônio é público. Ninguém pode sair por aí vendendo o que não lhe pertence.

Está na hora desse moço parar com suas papagaiadas nas redes sociais, de pedir doações inúteis para fazer jabá das empresas dos amigos, e virar prefeito de verdade. É para isso que foi eleito, salvo engano.

Ah, e se puder esconder esse quadro horrível das fotos, nos fará um favor.

Anúncios

Um comentário em “A era da pós-mentira

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s