«Chuteiras Pretas»: treinador e presidente, uma história

Por  Pedro Jorge da Cunha /  http://www.maisfutebol.iol.pt/

«CHUTEIRAS PRETAS» é um espaço de Opinião do jornalista Pedro Jorge da Cunha. Um olhar assumidamente ingénuo sobre o fenómeno do futebol. Às quintas-feiras, de quinze em quinze dias. Pode seguir o autor no Twitter. Calce as «CHUTEIRAS PRETAS».

O meu pai foi meu treinador durante dois anos. Não recomendo. E digo isto com a consciência plena de que foi o melhor treinador que apanhei ao longo da minha longa e modesta carreira de futebolista. Escalão máximo? III Divisão Nacional.

Rigor máximo e liberdade de expressão. Era esta a política desse balneário. Respeito absoluto e responsabilidade maior, tudo num ambiente absurdamente salutar. Sim, é possível. Os resultados acabam por surgir e ser consequência lógica da boa atmosfera.

Serve a introdução para sublinhar a minha parcialidade neste tema. Cresci com um treinador em casa, vi-o a passar noites a fio agarrado a folhas de cartolina carregada de estatísticas, tempo de jogo, assiduidade aos treinos, relatórios individuais, tudo dissecado ao mais ínfimo pormenor muito antes do apogeu da era digital.

Um trabalho de amor. E preocupação. Muita preocupação, misturada com o prazer da vitória, quando ela decidia aparecer ao domingo.

Este é o lado que conheço. Privei com ele de perto. O lado de confiança absoluta no trabalho do treinador, um trabalho não raras vezes inglório, sempre limitado pelo feedback do grupo, as dúvidas de quem tem 25 almas para gerir e a inconstância normal do futebol das equipas.

Contratar um treinador no futebol profissional é um ato da mais elevada responsabilidade. Escolher o nome certo, o perfil adequado, um homem capaz de agregar o grupo e dele retirar o máximo. Um líder, um bom treinador é um líder.

Em Portugal, e em particular na Liga, estamos a assistir a um ano de barbárie a este respeito. Vale a pena elencar os números: 17 mudanças de treinadores, 15 chicotadas, quatro clubes já no terceiro treinador da época. Uma aberração, com certeza.

Nas ligas espanhola e alemã, só oito clubes mudaram de treinador; na Ligue 1 francesa, sete; na Premier League, cinco; na Serie A italiana, cinco também. Só a Turquia, esse exemplo maior de equilíbrio e estabilidade, se aproxima de nós. 13 demissões.

Projeto e perfil são conceitos ridículos. Não existem.

Cada caso é um caso, sim senhor. Ou vice versa, diria o bom do Mário Jardel. Quais as razões? A jornalista Berta Rodrigues, com a ajuda de Manuel José e José Pereira, dá uma ajuda através desta excelente reportagem. É altura de dizer basta.

http://www.maisfutebol.iol.pt/chicotadas/dirigentes/a-incrivel-danca-da-liga-altura-de-os-treinadores-dizerem-basta

A tempestade ameaça ser perfeita. A mentalidade tacanha e irresponsável de muitos dirigentes, a necessidade sôfrega e a complacência dos treinadores, dispostos a tudo para treinar na I Liga. Leva a isto.  

Algum plantel resiste a mudanças constantes? Algum balneário rende sabendo que o homem à sua frente tem a cabeça condenada à guilhotina? Qual a responsabilidade de quem contrata e rasga acordos com a maior das facilidades?

Um presidente e um treinador, uma história real. Aconteceu assim, à minha frente. Acontece todas as semanas, imagino:

«- Mister, se esta semana não ganhar, o melhor é já não treinar na segunda-feira.»

  • Presidente, estamos acima das expetativas e não perdemos há seis jogos. O que se passa?»
  • Um empresário amigo garante-me um homem mais experiente e mais barato. Até ao fim da época precisamos de cortar no orçamento.

  • Presidente, tenho contrato por mais duas épocas.

  • Amigo, se não ganhar no domingo o melhor é não levantar ondas. Assine e vá à sua vida. Não manche o seu nome. Já sabe como estas coisas são.»    

«CHUTEIRAS PRETAS»

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