O apocalipse já é aqui

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Alexandra Lucas Coelho / no Publico

  1. O século XXI num desvio para o escuro, o Brasil superando a cada dia a notícia da véspera, o Rio de Janeiro caótico, falido, mais violento do que nunca. Aí, após um ano e tal de ausência, embarco num voo nocturno, ao nascer do sol estou entre aqueles picos de começo do mundo que anunciam a Baía da Guanabara, aterro no aeroporto oficialmente chamado Antonio Carlos Jobim, a mulher no guichet do passaporte diz eu também sou sagitariana, o taxista sorri como se não tivesse vida melhor, estão 25 graus com nuvens sobre o Corcovado e quem é que ainda se lembra que a mala levou uma hora para sair, ou teme o engarrafamento da próxima hora, para não falar do mundo se desmoronando. Só as frases nos muros (Amarração de Amor), as placas de trânsito (Túnel Rebouças) já são de chorar. Parece que saí daqui ontem. 2.

 

  1. Quando saí daqui, a Pesidente chamava-se Dilma Rousseff, o novo metrô era um tapume, o novo porto era um estaleiro, faltava um ano para a olimpíada, e, claro, ninguém imaginaria que a polícia brasileira ia chamar Calecute à operação em que o agora ex-governador Sérgio Cabral acabou preso. Durante todo esse tempo, Calecute esteve nos meus pensamentos por causa do outro Cabral, Pedro Álvares. Os manifestantes nas ruas do Rio desde 2013 não hesitaram em ligar os dois Cabrais, antecipando-se à polícia. Acamparam diante da casa de Cabral, Sérgio. Então governador, ele morava no Leblon. Agora está num bairro na outra ponta do Índice de Desenvolvimento Humano, Bangu, conhecido pelas prisões de alta segurança. E eu, que por mão amiga estou alojada no Leblon, acabo de conhecer a Edna, que trabalha no Leblon, mora numa favela de Bangu e me fez o update dos transportes Leblon-Bangu. Nada de novo: ela continua a levar duas horas para vir trabalhar, mais duas para voltar. Transporte é direito à cidade. Foi esse o rastilho das manifestações de 2013.
  1. Pegado a Ipanema, o Leblon é o Rio da praia, onde as coisas podem ser cinco vezes mais caras do que em Bangu. A minha nova amiga Edna deu-me este exemplo: quatro pães no Leblon são quase cinco reais; os mesmos quatro pães em Bangu são um real. Mas a crise já chegou até ao Leblon, diz a minha velha amiga Darcy: faliram restaurantes e bares, outros que ficavam abertos até de madrugada estão a fechar mais cedo, o movimento em geral caiu, o desemprego sobe a cada dia. Na vida de Darcy, que também trabalha no Leblon mas mora para lá da Barra da Tijuca, só houve uma mudança para melhor: a nova linha de metrô poupa-lhe uma hora de caminho todos os dias.
  1. Quando fui experimentar a nova linha de metrô, percebi porque é que Darcy a apanha e Edna não: é basicamente um braço para servir a olímpica Barra da Tijuca. Para quem vai-vem da Barra faz, sim, uma grande diferença, porque evita os engarrafamentos de horas entre Leblon/Gávea e São Conrado/Barra. Mas para quem vai no sentido oposto, a caminho do Centro, da Zona Norte ou da Zona Oeste mais longe do litoral, as vantagens são limitadas. Primeiro, porque esta nova linha termina em Ipanema, onde toda a gente desembarca, se afunila para subir em escadas demasiado estreitas à hora de ponta, e continua a afunilar-se para atravessar passagens e escadas até ao cais de conexão. E, segundo, esta nova linha só funciona das 6h às 21h, e de segunda a sábado. Em suma, o novo metro que tanto tempo e tapume demorou, é melhor do que nada, evidente, mas a partir das nove da noite não existe, todo o domingo e feriado não existe, e na hora de ponta demora tanto a passar dessa linha para as outras que cariocas como Edna simplesmente desistem. Por isso é que, tendo agora o metro à porta, ela prefere apanhar o ônibus de sempre e depois o comboio de sempre.
 
5.

Como o meu destino no metrô era o Centro, desembarquei em Ipanema, segui a multidão até ao cais da outra linha e saltei na Cinelândia para experimentar a outra grande novidade dos transportes “olímpicos” cariocas, o VLT, um metro de superfície. A Cinelândia é a praça nobre do Rio oitocentista, morada do Theatro Municipal, da Biblioteca Nacional, do Museu de Belas-Artes. Dela sai a Avenida Rio Branco, que no século XIX se chamava Avenida Central. E onde sempre houve várias faixas de trânsito agora há uma faixa de jardim, uma ciclovia e os carris do VLT, que passa de 15 em 15 minutos, a caminho da Rodoviária e do novo porto, dito Porto Maravilha. O grande boulevard carioca passou assim a ser o boulevard do VLT ao longo de quilómetros. Mas como tudo isto se passa no Rio de Janeiro, havia muitos empregados/assistentes VLT, mas apenas duas máquinas para os bilhetes com duas filas paradas, porque as máquinas tinham momentaneamente encravado. Ainda assim, ninguém protestava. Resolvido o problema, o VLT do futuro avançou pela Rio Branco, enquanto ciclistas passavam pelo meu nariz em sentido contrário (nunca tinha visto tantas bicicletas no Centro do Rio). Na paragem Candelária, frente à igreja onde há mais de vinte anos meninos de rua foram massacrados, centenas de pessoas manifestavam-se contra a nova proposta de lei que está a levar os estudantes a ocuparem escolas. Com muitos lugares vazios, mesmo sendo sexta-feira e hora de ponta, o meu VLT prosseguiu rumo ao Porto Maravilha: um calçadão larguíssimo com esplanadas; pintura urbana explodindo nas fachadas; skates e bicicletas ao longo da Guanabara; o perfil do novo Museu do Amanhã, de Santiago Calatrava, avançando pelas águas; velhos armazéns reconvertidos; um deles tomado pelo Salão do Livro; e dentro do salão um bruá de gente. Pareceu-me que passeavam, ou escutavam, ou assistiam, mais do que compravam livros. Mas estavam lá.

  1. Um livro de capa mole, 200 páginas, custa uns 40 reais, quem pode? Não Edna, que ganha 1000, paga 500 de aluguel na favela, aos 42 anos já tem dois netos, sustenta dois dos três filhos, o ex-marido não só não contribui como ela reza para que ele não volte, porque já a tentou matar, depois de todos os anos em que os filhos acordavam com o pai a espancar a mãe. Edna sempre se virou sozinha, quase todo o dia tem tiro em Bangu (traficantes do Terceiro Comando versus polícia), mas a vida dela já é tão cheia de dilema que tiroteio é quase nota de rodapé. De terça a sábado, ela vem cumprir horário na Zona Sul, domingo e segunda completa o salário fazendo faxina, passando roupa. Praia? Ela nem se lembra quando foi a última vez. Para quem mora em Bangu, trabalha sete dias por semana e ganha 1000 reais (275 euros), o Rio de Janeiro fica demasiado longe do mar e o apocalipse já é aqui faz tempo. Católica, com dois filhos convertidos a igrejas evangélicas, Edna votou nulo nas recentes eleições para prefeito. Marcelo Freixo não lhe diz nada, ela chegou a pensar votar Crivella, mas acabou por preferir o nulo. Foi assim que o “bispo” da IURD se elegeu, e será o próximo prefeito desta cidade.
  1. Deixo Edna, caminho em busca do melhor café expresso mais barato (cinco reais, ou 1,37 euros, até agora). Na esquina, há um bando swingando, sopros, violão, teclas, um papel dizendo ajude a banda a gravar um disco. O som transborda, levanta o Leblon, ouço alguém atrás de mim batendo palmas no ritmo, em jeito de percussão, quando olho é um moreno cinquentão em cima de uma bicicleta, daquelas de delivery, reboque cheio de sacos de gelo pronto a entregar, um delivery boy a caminho de grisalho. Está parado no sinal vermelho, o corpo dançando no ritmo, a cara rindo. Aí, o sinal abre e o moreno pedala a curva sem mãos como se planasse, ainda batendo palmas, puxando o gelo no calor, no colapso do Rio de Janeiro, com aquela alegria do nada que salva essa cidade o tempo todo.
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