Se os portugueses votassem nos EUA

E se os brasileiros, lá também votassem, o que teríamos , uma- coerência igual??

 

Por Alberto Gonçalves / no http://www.dn.pt

 

Acontece com frequência: durante almoçarada ou similar, um comensal até aí discreto toma conta da palavra para garantir ao mundo ou às duas mesas vizinhas que “os americanos são todos ignorantes”. Ou “boçais”. Ou “labregos”. Ou alguma observação assim desagradável. O que os americanos não são é sofisticados. Ou sábios. Ou esclarecidos. Ou qualquer virtude reservada a indivíduos que, entre a sobremesa e o café, lançam generalizações com prodigiosa facilidade. Também é engraçado notar que as generalizações nunca envolvem canadianos ou búlgaros, e raramente versam líbios ou japoneses. Em 92% dos casos, o alvo das doutas sentenças são mesmo os americanos.
Nada disto, porém, indicia desprezo. No mínimo, os portugueses preocupam-se com os pobres e desorientados habitantes dos EUA, tanto que dedicamos às eleições deles uma atenção e um cuidado que nem os próprios parecem dedicar. O resultado está à vista. Por cá, elegemos figuras do gabarito do prof. Marcelo, vulgo a Máquina de Afectos, e do dr. Costa, o sorridente funcionário de seitas totalitárias, perdão, amigos do povo. Por lá, aquelas cavalgaduras arriscam-se a eleger o sr. Trump. É por isso que o ideal seria entregar aos portugueses a decisão sobre o destino dos americanos. Dado que, incompreensivelmente, tal ainda não é possível, resta-nos pelo menos emitir uma opinião abalizada acerca do assunto. Não só cada português sabe em quem votaria nas “presidenciais” dos EUA: sabe em quem os americanos deveriam votar e sabe explicar porquê. Ou julga saber. É agora que a história se complica.
Sendo pessoas de bem, os portugueses preferem o candidato que não simpatiza com a Fox News, não recolhe o apoio da indústria do armamento e não é financiado por Wall Street. Sendo correctos, os portugueses preferem o candidato que dispensa o patrocínio do establishment republicano, despreza as elites e fala para o cidadão humilde e comum. Sendo conscienciosos, os portugueses preferem o candidato que insulta o clã Bush e as luminárias das administrações Bush, detesta o imperialismo e é detestado pelos “neoconservadores”. Sendo sensíveis, os portugueses preferem o candidato menos propenso a aventuras bélicas no exterior e mais avesso à globalização e ao comércio livre. Sendo dotados de memória, os portugueses preferem o candidato que assegura melhores relações com as superpotências rivais. Sendo avisados, os portugueses preferem o candidato que limite a América às suas fronteiras. Sendo progressistas, os portugueses preferem o candidato que odeia o Ocidente. Sendo modernos, os portugueses preferem o candidato que não é regularmente denunciado pelo WikiLeaks e que recolhe as preferências do sr. Assange, do filósofo Zizek e de outros heróis da extrema-esquerda internacional. Sendo inconformados, os portugueses preferem o candidato que combate o “sistema”. Acontece que esse candidato é Donald Trump. Sendo coerentes, os portugueses, ou a vasta maioria deles, preferem Hillary Clinton.
E, brincadeiras à parte, fazem bem. Quer pelos motivos enumerados acima quer pelo egocentrismo imprevisível do sr. Trump, a sra. Hillary, que representa bastante daquilo que os portugueses imaginam abominar na América, é um mal muito menor. No que toca aos EUA, os portugueses rejeitam o charlatanismo, a demagogia e o perigo em prol da relativa moderação: por uma vez, mesmo que pelas razões erradas, escolhem a opção certa. Em Portugal, como diariamente se constata em São Bento, em Belém e nas sondagens, erram nas razões e nas escolhas. Aqui, a única coisa certa é o perigo, além dos charlatães e demagogos. Se os portugueses votassem nos EUA, seria uma maravilha. O nosso azar é votarem em Portugal.

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