Mensagem argentina ( e urgente) para Temer


Por Ernesto Tenembaum / brasil.elpais.com

Nos últimos tempos do kirchnerismo, instalou-se na Argentina uma ideia um tanto simplista sobre o futuro. Sustentava basicamente que o país se atrasou e se complicou demais por causa de uma série de políticas equivocadas, executadas por gente desagradável, que foram na contramão da sensatez e das exigências do mercado. E que tudo consistia em pôr as coisas em seu devido lugar: mandar os desagradáveis embora e colocar abaixo o que estava em cima, e vice-versa. Algo assim acontece neste momento no Brasil. Os mercados não queriam o PT, dizem alguns analistas. E parece que basta expulsar Dilma Rousseff do poder e adotar algumas políticas supostamente sensatas para que todas as flores floresçam. Se Michel Temer dedicar alguns minutos a espiar um pouco o que acontece na Argentina, nove meses depois da posse do seu colega Mauricio Macri, talvez descubra que as coisas não são tão simples. Porque essa ideia hoje parece quase uma vulgaridade, um absurdo, uma ilusão, um caso típico de wishful thinking, como se diz na parte de cima do mundo.

Claro que o filme da Argentina macrista mal começou, e que ninguém pode saber o seu final. Mas a fotografia é bastante inquietante. Macri disse que chegava para reduzir a inflação, a pobreza e o desemprego, e para encaminhar definitivamente o país no rumo do desenvolvimento. Entretanto, os primeiros efeitos são exatamente o contrário disso. A Argentina sofre a inflação mais alta desde 1991, uma das contrações mais fortes do seu setor industrial, uma alta de aproximadamente três pontos percentuais na quantidade de desempregados e a queda de centenas de milhares de pessoas abaixo da linha de pobreza. Existe uma discussão sobre quem é o responsável por tudo isto, e por isso Macri mantém um respeitável nível de apoio: muitos acreditam que os males derivam do passado. Mas os males estão aí e contrastam muito com o clima festivo que se vivia no momento da posse do novo presidente. Há meses, neste contexto, o Governo anuncia que tudo está a ponto de mudar, que o ponto de inflexão é iminente. Comemora agora a queda da inflação, apesar de os custos sociais terem sido enormes para um período tão curto.

Com o resultado dado, é bastante simples explicar o que aconteceu. A Argentina vinha de quatro anos consecutivos de estancamento. O Governo então decidiu liberar a taxa de câmbio, o que desatou uma corrida inflacionária, disparada pelo crescimento dos preços de importação. A isso o Governo adicionou um aumento das tarifas de gás e eletricidade – necessário, mas abrupto demais… Imediatamente, o consumo se retraiu sensivelmente. O faturamento das pequenas empresas e pequenos comércios, que já era frágil, despencou, enquanto seus custos subiram. Precisaram se ajustar ou fechar. Quem percorrer hoje o centro de Buenos Aires se surpreenderá com a quantidade de pontos comerciais para alugar. O Governo acreditava que, como era isso que o mercado exigia, a reimplantação da sensatez geraria um boom de investimentos. A única coisa que chegou foram os créditos, já que a Argentina é um país desendividado que pode pagar juros altos em dólar, até que um dia – e aqui convém rezar, porque seria muito traumático – não lhe emprestam mais. Mas, como também foram eliminados impostos dos setores exportadores para estimular seu crescimento, o déficit fiscal aumentou enormemente.

De modo que a alegria inicial foi substituída por uma grande incerteza e pela convicção de que as coisas definitivamente não são simples nestes tempos na América Latina. Os mercados, seja lá o que for isso, exigem medidas, comemoram-nas, mas aí os investimentos não necessariamente chegam, ou não chegam tão rápido, e as coisas começam a engrossar.
Mensagem argentina (e urgente) para Temer

Nos últimos tempos do kirchnerismo, instalou-se na Argentina uma ideia um tanto simplista sobre o futuro. Sustentava basicamente que o país se atrasou e se complicou demais por causa de uma série de políticas equivocadas, executadas por gente desagradável, que foram na contramão da sensatez e das exigências do mercado. E que tudo consistia em pôr as coisas em seu devido lugar: mandar os desagradáveis embora e colocar abaixo o que estava em cima, e vice-versa. Algo assim acontece neste momento no Brasil. Os mercados não queriam o PT, dizem alguns analistas. E parece que basta expulsar Dilma Rousseff do poder e adotar algumas políticas supostamente sensatas para que todas as flores floresçam. Se Michel Temer dedicar alguns minutos a espiar um pouco o que acontece na Argentina, nove meses depois da posse do seu colega Mauricio Macri, talvez descubra que as coisas não são tão simples. Porque essa ideia hoje parece quase uma vulgaridade, um absurdo, uma ilusão, um caso típico de wishful thinking, como se diz na parte de cima do mundo.

Claro que o filme da Argentina macrista mal começou, e que ninguém pode saber o seu final. Mas a fotografia é bastante inquietante. Macri disse que chegava para reduzir a inflação, a pobreza e o desemprego, e para encaminhar definitivamente o país no rumo do desenvolvimento. Entretanto, os primeiros efeitos são exatamente o contrário disso. A Argentina sofre a inflação mais alta desde 1991, uma das contrações mais fortes do seu setor industrial, uma alta de aproximadamente três pontos percentuais na quantidade de desempregados e a queda de centenas de milhares de pessoas abaixo da linha de pobreza. Existe uma discussão sobre quem é o responsável por tudo isto, e por isso Macri mantém um respeitável nível de apoio: muitos acreditam que os males derivam do passado. Mas os males estão aí e contrastam muito com o clima festivo que se vivia no momento da posse do novo presidente. Há meses, neste contexto, o Governo anuncia que tudo está a ponto de mudar, que o ponto de inflexão é iminente. Comemora agora a queda da inflação, apesar de os custos sociais terem sido enormes para um período tão curto.

Com o resultado dado, é bastante simples explicar o que aconteceu. A Argentina vinha de quatro anos consecutivos de estancamento. O Governo então decidiu liberar a taxa de câmbio, o que desatou uma corrida inflacionária, disparada pelo crescimento dos preços de importação. A isso o Governo adicionou um aumento das tarifas de gás e eletricidade – necessário, mas abrupto demais… Imediatamente, o consumo se retraiu sensivelmente. O faturamento das pequenas empresas e pequenos comércios, que já era frágil, despencou, enquanto seus custos subiram. Precisaram se ajustar ou fechar. Quem percorrer hoje o centro de Buenos Aires se surpreenderá com a quantidade de pontos comerciais para alugar. O Governo acreditava que, como era isso que o mercado exigia, a reimplantação da sensatez geraria um boom de investimentos. A única coisa que chegou foram os créditos, já que a Argentina é um país desendividado que pode pagar juros altos em dólar, até que um dia – e aqui convém rezar, porque seria muito traumático – não lhe emprestam mais. Mas, como também foram eliminados impostos dos setores exportadores para estimular seu crescimento, o déficit fiscal aumentou enormemente.

De modo que a alegria inicial foi substituída por uma grande incerteza e pela convicção de que as coisas definitivamente não são simples nestes tempos na América Latina. Os mercados, seja lá o que for isso, exigem medidas, comemoram-nas, mas aí os investimentos não necessariamente chegam, ou não chegam tão rápido, e as coisas começam a engrossar.

Ou seja: se Temer está pensando em privatizar setores estratégicos, ou em ajustar as contas públicas, ou em desativar programas sociais, talvez devesse saber que, em vez de sair, pode estar se enredando ainda mais no labirinto herdado do Governo do qual participou como vice-presidente.

Não está claro se para todo problema há de fato uma solução. Mas, antes de aplicar algumas receitas, melhor pensar duas, três e até quatro vezes. Em todo caso, a experiência argentina oferece ao Brasil um espelho no qual se olhar, um reflexo de que sair de certos esquemas é muito mais custoso e complexo do que se diz numa campanha eleitoral ou num processo de impeachment.

Tomara que lhes seja mais leve.

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